
Há mais 20 anos visito feiras, empresas e ambientes corporativos em diferentes países. Ao longo dessa trajetória, aprendi que os melhores projetos não nascem apenas da observação do design, mas da compreensão das pessoas, da cultura e da forma como elas vivem os espaços.
Todos os anos acompanhamos tendências, lançamentos e novidades do mercado de mobiliário corporativo. E como de costume, decidimos ir além.
Nossa participação na Orgatec Tokyo não teve como objetivo apenas conhecer novos produtos ou identificar tendências de design. Aproveitamos a viagem para visitar empresas, conversar com profissionais e, principalmente, observar como os conceitos apresentados na feira são aplicados na prática, dentro de escritórios em funcionamento.
Sempre que participamos de uma feira internacional, procuramos reservar alguns dias para esse tipo de visita. Afinal, uma feira apresenta ideias. Os escritórios mostram se essas ideias realmente funcionam.
Entre as empresas visitadas, uma das que mais chamou nossa atenção foi a Kokuyo, uma das principais fabricantes japonesas de mobiliário corporativo. Além de desenvolver produtos para escritórios ao redor do mundo, a empresa utiliza seus próprios 12 andares de escritórios em Tóquio como um verdadeiro laboratório, no qual novas soluções são constantemente testadas, avaliadas e aperfeiçoadas.
Ao final da viagem, voltamos com uma percepção diferente daquela que imaginávamos antes de embarcar. O maior aprendizado não estava em uma nova cadeira, em uma mesa, em um material ou em um acabamento inovador. Estava na forma como os japoneses observam o comportamento das pessoas.

O novo papel do escritório
O ambiente de trabalho vive mais uma transformação.
Depois da mobilidade e da consolidação do trabalho híbrido, a Inteligência Artificial volta a modificar a maneira como as pessoas trabalham e, consequentemente, o papel dos escritórios.
Se hoje é possível executar inúmeras tarefas de praticamente qualquer lugar, por que as pessoas ainda deveriam ir ao escritório?
A resposta apareceu repetidamente durante a Orgatec Tokyo: o escritório deixa de ser apenas um local destinado à execução de tarefas e passa a ser, cada vez mais, um espaço de encontro, colaboração, cultura, aprendizado e pertencimento.
Durante a feira, vimos muitas soluções inovadoras, mas percebemos que os projetos já não são mais centrados exclusivamente nos móveis. Eles são centrados nas pessoas.
Iluminação, acústica, vegetação, tecnologia, arquitetura e mobiliário passam a trabalhar de forma integrada para criar ambientes capazes de estimular criatividade, concentração, colaboração, bem-estar e conexão.
O mobiliário passa a ser estratégico, fazendo parte de um sistema muito mais amplo.

Projetar, observar, medir e corrigir
Na visita à Kokuyo, um exemplo aparentemente simples sintetizou uma das principais lições da viagem.
Uma área criada para promover a interação entre os colaboradores estava sendo pouco utilizada. Em vez de reformar imediatamente o ambiente ou substituir o mobiliário, a empresa analisou os dados e procurou compreender o comportamento das pessoas.
Como estratégia para incentivar a circulação e os encontros espontâneos, foram instaladas máquinas que ofereciam dois snacks gratuitos por dia para cada colaborador. Depois da mudança, o comportamento das pessoas e a utilização do espaço voltaram a ser medidos.
Essa lógica resume uma postura que observamos repetidamente no Japão: projetar, observar, medir, corrigir e medir novamente.
Os japoneses medem praticamente tudo.
Não apenas a ocupação dos espaços, mas também onde as pessoas permanecem por mais tempo, quais ambientes favorecem encontros, quais áreas são pouco utilizadas e de que forma cada decisão interfere na experiência dos colaboradores.
O projeto não termina quando a obra é entregue.
A entrega é apenas o início de um novo processo de observação e aperfeiçoamento.
Essa talvez tenha sido uma das diferenças mais evidentes em relação à realidade brasileira. Enquanto muitas empresas ainda concentram suas discussões principalmente no investimento necessário para executar um projeto, encontramos empresas japonesas preocupadas em entender se os ambientes realmente melhoram a colaboração, o bem-estar, a produtividade e a experiência das pessoas.
Mais do que executar um espaço, existe uma preocupação contínua em avaliar seus resultados.

Um escritório também reflete a cultura de um país
Outra grande lição da viagem foi perceber que não existe um escritório ideal que possa ser reproduzido da mesma maneira em todos os lugares do mundo.
Os ambientes refletem a cultura das pessoas que os utilizam.
Durante nossas visitas, ficou evidente que muitas soluções adotadas no Japão estão diretamente relacionadas à forma como os japoneses enxergam o trabalho e as relações profissionais.
Enquanto no Brasil o trabalho é frequentemente percebido como um meio pessoal para construir uma vida melhor, no Japão existe um forte senso de contribuição coletiva. Em diversos momentos, tivemos a impressão de que o trabalho é visto também como uma missão e como uma forma de gerar valor para a empresa, para a equipe e para a sociedade.
Essa diferença cultural influencia diretamente o comportamento dentro dos escritórios.
Em uma sociedade naturalmente mais reservada, como no Japão, muitas soluções são desenvolvidas para incentivar encontros, estimular conversas e fortalecer a interação entre as pessoas.
No Brasil, essas conexões tendem a acontecer de forma muito mais espontânea.
Por isso, nem tudo o que funciona no Japão precisa ou deve ser reproduzido no Brasil. Uma solução criada para estimular a interação em uma cultura mais introvertida pode não produzir o mesmo resultado em uma cultura expansiva, relacional e informal como a nossa.
A própria barreira do idioma foi um desafio durante toda a viagem. Mesmo em empresas de referência, poucas pessoas falavam inglês. Isso exigiu de nós ainda mais observação, sensibilidade e atenção aos detalhes, tornando a experiência particularmente rica.
Mais do que buscar referências internacionais, precisamos compreender os princípios que tornam determinadas soluções eficientes e interpretá-los à luz da nossa própria cultura.
O desafio não está em reproduzir o que vimos, mas em entender por que aquilo funciona.
Duas formas de inovar
Outra observação interessante surgiu ao compararmos a dinâmica das feiras japonesas e brasileiras.
Na Orgatec Tokyo, tivemos a impressão de que muitos dos produtos apresentados chegavam ao evento depois de um longo processo de pesquisa, desenvolvimento, teste e validação.
A feira parecia representar a consolidação de um trabalho que já vinha sendo amadurecido havia bastante tempo.
No Brasil, nossa percepção é diferente.
Muitas vezes, as feiras funcionam como espaços de experimentação. As empresas apresentam conceitos, escutam arquitetos, clientes e especificadores, observam a reação do mercado e refinam seus produtos a partir desse retorno.
Nenhum desses modelos é necessariamente melhor do que o outro.
São formas diferentes de inovar.
O modelo japonês transmite consistência, profundidade e disciplina, como resultado de um processo de pesquisa bastante estruturado.
O modelo brasileiro revela uma característica que admiramos muito: a agilidade.
Temos capacidade de testar rapidamente novas ideias, adaptar produtos, ouvir o mercado e responder às mudanças com velocidade.
Em um cenário de transformações cada vez mais rápidas, essa flexibilidade pode representar uma importante vantagem competitiva.
Talvez o maior aprendizado não esteja em escolher um dos modelos, mas em combinar o melhor dos dois mundos: a profundidade da pesquisa com a capacidade de adaptação.
Pesquisar profundamente, sem perder a agilidade.
Desenvolver com consistência, sem deixar de ouvir o mercado.
O Brasil está realmente atrás?
Antes da viagem, imaginávamos encontrar uma realidade muito superior à nossa.
Voltamos pensando diferente.
O Brasil possui excelentes arquitetos, designers e empresas desenvolvendo ambientes corporativos de altíssimo nível. Visitamos escritórios muito interessantes no Japão, mas também reforçamos a convicção de que temos projetos brasileiros comparáveis e, em determinados aspectos, até superiores aos que conhecemos durante a viagem.
Nossa criatividade, nossa capacidade de adaptação e nossa velocidade para transformar ideias em soluções são grandes diferenciais.
A principal diferença que percebemos não está necessariamente na qualidade dos projetos.
Está na cultura de acompanhar continuamente os resultados das decisões tomadas.
No Japão, encontramos empresas que não apenas projetam espaços, mas procuram compreender, com dados e observação, como esses ambientes influenciam o comportamento, os encontros, o bem-estar e a colaboração.
No Brasil, temos talento, criatividade e capacidade técnica. O próximo passo talvez seja fortalecer a cultura de medir, avaliar e aperfeiçoar os espaços depois de sua implantação.

A principal conclusão
Voltamos do Japão admirando a capacidade das empresas japonesas de transformar observação em melhoria contínua.
Mas também voltamos com ainda mais confiança no potencial do mercado brasileiro.
Não acreditamos que o caminho seja simplesmente reproduzir modelos internacionais.
Acreditamos em compreender os princípios por trás dessas experiências e adaptá-los à nossa cultura, à realidade das empresas brasileiras e à forma como as pessoas realmente trabalham.
Talvez a maior tendência apresentada na Orgatec Tokyo não seja um novo produto, um novo material ou uma nova tecnologia. Talvez seja uma mudança de mentalidade.
Projetar ambientes corporativos vai muito além de organizar espaços.
Hoje, significa entender, medir e responder ao comportamento humano.
Porque, no fim das contas, o valor de um escritório está no conjunto de ideias e produtos, incluindo o mobiliário, que proporcionará as melhores experiências.