As pessoas mudaram. O repertório para projetar escritórios também precisa mudar.

(Artigo 3 da série "Projetar por Atividades")

No primeiro artigo desta série, falamos sobre uma mudança importante na lógica dos escritórios: se as pessoas realizam diferentes atividades ao longo do dia, os espaços também precisam ser pensados para apoiar diferentes formas de trabalhar.

No segundo, demos um passo anterior ao projeto e mostramos como um briefing mais aprofundado ajuda a compreender a empresa, seu momento, sua cultura, suas perspectivas futuras e, principalmente, a maneira como as pessoas trabalham.

Mas, antes de começarmos a desenvolver o projeto, existe ainda uma terceira camada que consideramos fundamental: o repertório do arquiteto.

Um bom briefing nos permite olhar para dentro da empresa e compreender aquela realidade específica. 

O repertório faz um movimento complementar: amplia nosso olhar para aquilo que está acontecendo fora da empresa. Novas tecnologias, diferentes gerações convivendo no mercado de trabalho, modelos híbridos, mudanças sociais e novas expectativas em relação ao trabalho estão alterando comportamentos e, consequentemente, aquilo que as pessoas esperam dos ambientes corporativos.

É por isso que acreditamos que projetar escritórios exige atualização constante. Visitar feiras, conhecer projetos de referência, acompanhar pesquisas, conhecer e estudar novos produtos, visitar empresas e observar como diferentes organizações estão respondendo às transformações do trabalho são maneiras de construir essa bagagem.

Mais do que acompanhar tendências, porém, interessa compreender movimentos comportamentais. Tendências podem passar. Comportamentos ajudam a explicar por que os espaços estão mudando.

Como costumamos dizer na RS Design, o corporativo não está mudando porque o design mudou. Ele está mudando porque as pessoas mudaram.

E alguns desses movimentos merecem entrar no repertório de quem projeta os escritórios de hoje e dos próximos anos.

O escritório como um hub de encontros

Durante décadas, ir ao escritório era praticamente sinônimo de ir trabalhar. Hoje, grande parte das atividades profissionais pode acontecer em diferentes lugares, especialmente nas empresas que adotaram modelos híbridos.

Isso não significa que o escritório tenha perdido sua importância. Significa que a presença física precisa fazer sentido.

Quando uma pessoa se desloca até o escritório, o espaço pode oferecer experiências que dificilmente acontecem da mesma maneira quando cada profissional está em um lugar diferente: encontros entre equipes, reuniões estratégicas, conversas de alinhamento, integração de novos colaboradores, aprendizagem entre colegas e momentos de convivência que ajudam a construir relações e fortalecer a cultura da empresa.

É nesse contexto que começamos a enxergar o escritório cada vez mais como um hub de encontros.

O mobiliário corporativo modular e flexível será o grande aliado desse tipo de espaço, por isso a importância de estar atento aos lançamentos de produtos e estreitar a parceria com fornecedores atualizados.

As atividades passam a organizar os espaços

Esse movimento está diretamente relacionado ao conceito que deu origem a esta série.

Se uma pessoa precisa se concentrar em determinado momento, participar de uma videoconferência em outro, colaborar com a equipe, receber um cliente, fazer uma apresentação ou participar de um treinamento, faz cada vez menos sentido pressupor que todas essas atividades acontecerão da mesma maneira e no mesmo lugar.

É justamente essa reflexão que está por trás do conceito de Activity-Based Working (ABW), ou trabalho baseado em atividades. Em vez de organizar todo o escritório apenas a partir de cargos ou departamentos, passam a existir diferentes possibilidades de espaço para diferentes necessidades: concentrar, colaborar, reunir, cocriar, treinar, conviver, receber, produzir, entre outros; como mostramos na imagem ilustrativa abaixo.

Isso não significa, porém, que todo escritório precise eliminar postos fixos ou adotar integralmente um modelo ABW. Projetar por atividades não é aplicar uma fórmula pronta.

Uma empresa pode demandar mais espaços de concentração e privacidade, enquanto outra precisa favorecer encontros constantes entre equipes. Algumas recebem clientes diariamente; outras realizam treinamentos frequentes; outras ainda precisam criar oportunidades para que profissionais de áreas diferentes se encontrem e compartilhem conhecimento.

É justamente por isso que o briefing que discutimos no artigo anterior é tão importante. O repertório nos apresenta possibilidades, mas é o conhecimento profundo da empresa que nos permite avaliar o que realmente faz sentido para aquela realidade.

Flexibilidade passa a fazer parte da estratégia

Quando diferentes atividades precisam coexistir dentro do escritório, a capacidade de adaptação dos espaços ganha uma importância muito maior.

Flexibilidade, nesse contexto, não significa simplesmente colocar rodízios nos móveis. Significa pensar em ambientes capazes de assumir diferentes configurações sem exigir grandes intervenções sempre que uma necessidade muda.

Uma mesma sala pode receber uma reunião pela manhã, um treinamento à tarde e uma dinâmica de grupo no final do dia. Para que isso aconteça com facilidade, mesas dobráveis, mobiliário modular, arquibancadas retráteis, assentos móveis e recursos tecnológicos acessíveis podem fazer parte da solução. 

Espaço multiúso com mobiliário flexível que estimula o movimento das pessoas e atende à diferentes tipos de atividades no escritório.
Espaço multiúso com mobiliário flexível que estimula o movimento das pessoas e atende à diferentes tipos de atividades no escritório.

Mas um ambiente verdadeiramente flexível precisa ser pensado como tal desde o projeto. Circulação, armazenamento, conectividade, acústica e facilidade de reconfiguração também precisam acompanhar essa lógica.

O escritório também pode estimular o movimento

Outro ponto interessante que temos observado em visitas a feiras internacionais, como Orgatec e Milão, é a presença cada vez maior de soluções que convidam as pessoas a mudar de postura e incorporar movimento naturalmente à rotina de trabalho. Mesas com regulagem de altura, mobiliários que permitem diferentes formas de sentar, layouts que estimulam o movimento são alguns exemplos.

Essa discussão é particularmente relevante quando pensamos no tempo que passamos sentados durante o trabalho. A Organização Mundial da Saúde recomenda “movimentar-se naturalmente” durante o dia, com benefícios cruciais para saúde física e mental.

Para quem projeta, surge então uma questão que vai além de definir onde cada atividade acontecerá: como as pessoas irão se movimentar entre essas atividades ao longo do dia?

Isso significa preparar oportunidades para que as pessoas se movimentem de forma mais orgânica. Alternar entre trabalhar sentado e em pé, deslocar-se para outro ambiente para buscar uma impressão, realizar uma conversa rápida em um espaço diferente ou escolher entre diferentes tipos de assentos são pequenas mudanças que podem fazer parte da rotina.

Conforto acústico para colaboração e concentração coexistirem no escritório

A busca por maior colaboração transformou profundamente os escritórios nas últimas décadas. Barreiras foram reduzidas, equipes aproximadas e áreas abertas passaram a ocupar uma parcela importante dos projetos corporativos.

Essa aproximação trouxe ganhos importantes, mas também evidenciou outro desafio: quanto mais encontros, conversas, videoconferências e movimentação acontecem no mesmo ambiente, maior o ruído e maior também pode ser a dificuldade para quem precisa realizar uma atividade que exige concentração.

Por isso, uma das mudanças que temos observado tanto nos projetos quanto nas feiras internacionais é a ampliação das soluções voltadas ao conforto acústico e à privacidade. Cabines, painéis, nuvens, baffles, divisórias, luminárias acústicas, estofados e outros elementos podem contribuir para controlar a propagação do som e oferecer diferentes graus de privacidade dentro de um mesmo escritório.

Cabines de privacidade para atividades focadas, inseridas em meio às áreas colaborativas e de alta produtividade. Mobiliário RS Design.
Cabines de privacidade para atividades focadas, inseridas em meio às áreas colaborativas e de alta produtividade. Mobiliário RS Design.

Projetar por atividades significa reconhecer que colaboração e foco não são necessidades opostas entre as quais precisamos escolher. As pessoas precisam das duas em diferentes momentos do dia, e o espaço deve oferecer condições adequadas para ambas.

Aprendizagem contínua ganha espaço dentro do escritório

Há ainda um movimento que vem ganhando força e que consideramos especialmente importante incorporar ao repertório de quem projeta ambientes corporativos: a aprendizagem contínua.

A velocidade com que tecnologias, ferramentas e processos estão mudando faz com que aprender deixe de estar restrito a treinamentos formais ou momentos específicos da carreira. Cada vez mais, aprendemos enquanto trabalhamos, observando colegas, compartilhando descobertas, testando novas ferramentas e buscando soluções para problemas que surgem no cotidiano.

A inteligência artificial torna esse comportamento particularmente visível.

Quando uma pessoa descobre uma nova maneira de utilizar determinada ferramenta e mostra para um colega, quando alguém compartilha um prompt que funcionou melhor ou quando uma equipe experimenta conjuntamente uma nova aplicação, o conhecimento deixa de permanecer individual e começa a circular pela organização.

Área de escape, ao lado de estações de trabalho, com a finalidade de compartilhamento de conhecimento.
Área de escape, ao lado de estações de trabalho, com a finalidade de compartilhamento de conhecimento.

A Global Workplace Survey 2026 encontrou justamente uma relação interessante entre o uso mais intenso da IA e a aprendizagem. Segundo a pesquisa, profissionais classificados como usuários mais avançados dessas ferramentas dedicam 1,5 vez mais tempo à aprendizagem do que aqueles que estão em estágios iniciais de adoção. Também passam menos tempo trabalhando sozinhos e mais tempo aprendendo e socializando com outras pessoas.

Esse dado nos leva a uma reflexão que parece paradoxal à primeira vista: quanto mais algumas tarefas podem ser realizadas com tecnologia, mais valor podem ganhar os ambientes que favorecem aquilo que depende das relações humanas.

A troca de experiências, a criatividade, a experimentação, as perguntas espontâneas e o aprendizado entre colegas podem se tornar ainda mais importantes em um momento de transformação tecnológica acelerada.

E isso também traz consequências para o espaço físico.

Quando falamos em ambientes para aprendizagem, não precisamos pensar apenas em uma sala de treinamento tradicional. Uma arquibancada pode receber uma apresentação rápida; uma área colaborativa pode permitir que alguém compartilhe uma descoberta com o grupo; uma área de escape entre estações de trabalho pode ser um bom local de troca e espaços informais podem estimular conversas nas quais conhecimentos são compartilhados sem que tenha sido necessário agendar uma reunião.

O escritório pode, portanto, criar condições para que o conhecimento circule entre as pessoas. E talvez essa seja uma das funções mais interessantes que o espaço físico começa a assumir diante do avanço da tecnologia.

Usar repertório não significa reproduzir referências

Feiras internacionais, viagens, visitas a escritórios, pesquisas, novos produtos e projetos de referência são fontes valiosas de conhecimento para quem atua no universo corporativo. Mas construir repertório não significa simplesmente colecionar imagens ou reproduzir soluções que funcionaram em outros lugares.

O verdadeiro valor desse conhecimento está na capacidade de interpretá-lo.

Nem toda empresa precisa adotar ABW. Nem todo escritório precisa de uma grande área colaborativa. Nem toda sala precisa ser multiuso. E nem toda solução apresentada em uma feira internacional fará sentido para qualquer cliente.

É aqui que os dois artigos anteriores desta série começam a se conectar ainda mais com este.

O briefing nos ajuda a olhar profundamente para dentro da empresa: entender o negócio, sua cultura, suas pessoas, suas atividades e suas necessidades.

O repertório amplia nosso olhar para fora: permite compreender mudanças de comportamento, novas formas de trabalhar e diferentes possibilidades de responder a elas.

Um não substitui o outro. Eles se complementam.

Agora temos briefing e repertório. Está na hora de projetar.

Ao longo dos artigos desta série, construímos as diferentes camadas que antecedem o desenvolvimento de um projeto focado em atividades.

Chegamos, então, ao momento em que todo este conteúdo precisa se encontrar.

De um lado, temos tudo aquilo que aprendemos sobre o cliente. Do outro, referências, pesquisas, experiências, produtos e conhecimentos sobre os movimentos que estão transformando o trabalho.

É a partir daí que entra uma das habilidades mais importantes de quem projeta: interpretar todo esse conhecimento e transformá-lo em uma solução única para aquela empresa.

É justamente sobre essa etapa que vamos falar no quarto e último artigo da série Projetar por Atividades: como transformar briefing e repertório em um projeto corporativo altamente personalizado, capaz de responder às atividades, às pessoas, à cultura e às necessidades reais de cada organização.

Aguardo nosso próximo artigo!

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