Seria o home office uma ideia inquebrável?

* Por Lisandra Mascotto

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Vamos começar essa reflexão entendendo que nem sempre o que parece muito positivo quando estamos no campo da teoria, realmente se consolida benéfico quando colocado em prática.

Estamos inclusive vivendo isso agora mesmo, durante a pandemia de COVID-19. Temos diversas vacinas sendo testadas em laboratório, mas ainda não sabemos se, na prática, elas serão seguras e eficazes. E é justamente por isso que os cientistas criam o projeto da vacina, fazem seus ensaios laboratoriais e, depois, fase por fase, começam a testagem na população. Até que eles vejam que tudo o que foi pensado na teoria de fato se comprova na prática, não temos uma vacina pronta para ser utilizada por todo mundo.

E essa divergência entre teoria e prática não é exclusiva da saúde e da ciência. Acontece conosco o tempo inteiro.

Você lembra que, recentemente, o empreendedor bilionário, dono da SpaceX e da Tesla, Elon Musk, vivenciou uma experiência não tão bacana ao apresentar uma nova evolução de seus produtos? No final de 2019, Musk fez um grande evento para contar ao público sobre o vidro inquebrável de uma série de caminhonetes da Tesla. Durante a apresentação, então, ele foi testar a resistência do vidro na frente de todos. E o que aconteceu? Na prática, o vidro inquebrável se espatifou. Quebrou.

O vídeo com essa cena rodou o mundo acompanhado de memes e de piadas que diziam que essa era uma das maiores vergonhas alheias do século.

Na teoria, o vidro era inquebrável. Na prática, quando houve uma sequência errada dos testes – Musk disse que as marretadas que foram dadas na porta do veículo antes do fatídico teste do vidro afetaram a base das janelas, fazendo com que os vidros se estilhaçassem ao serem atingidos pelas bolas de aço arremessadas – o projeto mostrou falhas.

Mas o que tudo isso tem a ver com arquitetura e com o mundo corporativo?

Passamos anos e anos desejando o home office e considerando que o trabalho remoto seria bom para todos em um futuro muito próximo. Algumas empresas foram testando, colocaram alguns de seus colaboradores para trabalhar de casa alguns dias na semana, algumas persistiram nessa estratégia, outras desistiram.

Até que chegou a COVID-19 e obrigou todo mundo a se isolar em casa. E, com isso, as empresas se viram sem alternativas, a não ser encarar um trabalho remoto forçado.

Será que a teoria se comprovou na prática? Será que o home office é bom para todo mundo o tempo inteiro? Pois agora, passados sete meses do início da crise do novo coronavírus no Brasil, já temos respostas sobre como a teoria não se consolidou quando posta em prática.

Em primeiro lugar, temos que entender que um cenário de pandemia não pode ser visto com normalidade. Isso significa que os indicadores de produtividade e de entrega obtidos durante momentos de alta tensão e tão difíceis como os que estamos vivendo, não podem ser aplicados para uma situação rotineira.

E por que isso acontece? Pois com a pandemia, muitas pessoas que estavam empregadas e foram para o trabalho remoto estavam envoltas no medo. O medo de perder o emprego, o medo do vírus, o medo da crise que assolava a nação. Sob medo, as atitudes e as entregas são diferentes. As pessoas passaram a trabalhar muitas horas a mais por dia, a forçar uma produtividade que não é sustentável no longo prazo.

Além disso, as horas de lazer foram limitadas ao ser imposto o isolamento social. Não havia comércio aberto, não havia diversão na rua. Todos estavam em casa. E, estando 100% do tempo de casa, há uma tendência maior de as pessoas se apegarem mais ao trabalho.

Outro ponto que interfere está na “novidade”. As videoconferências que substituíram as reuniões presenciais eram novidade. Todo mundo estava um pouco empolgado com esses encontros virtuais. Até mesmo com a grande quantidade de lives e de eventos que migraram para o ambiente digital.

Meses e meses depois, o que você ouve das pessoas? Que elas não aguentam mais as reuniões pela Internet, que não conseguem mais acompanhar os webinars que já se tornaram cansativos. Até mesmo as famosas lives sertanejas ficaram mais espaçadas.

Vamos voltar ao cenário pré-pandemia? Somos seres sociais. Isso é comprovado pela ciência. Nós precisamos de bons relacionamentos para que a solidão não nos faça sofrer. O ser humano nasceu assim, sociável, buscando encontrar pessoas e compartilhar experiências.

Como ficaria toda essa sociabilidade em um cenário em que o home office é adotado permanentemente, para todos, e de forma integral? Em quais momentos as pessoas se encontrariam para trocas muito importantes para o desenvolvimento dos trabalhos, para conversar e ter ideias em conjunto, e até mesmo para aprender observando os outros trabalharem? Onde elas se encontrariam?

Não há chances de o escritório desaparecer. Das empresas colocarem todos seus times totalmente em home office. As pessoas precisam se encontrar, precisam se reunir, precisam estar próximas uma das outras. E isso, no mundo corporativo, só é possível nos escritórios. Justamente por reconhecer essa necessidade que as corporações estão investindo em espaços próprios para essa interação, seja para aqueles que trabalham in loco, seja para receber periodicamente os que trabalham remotamente. Ter a oportunidade – e o espaço ideal – para esses encontros com os colegas de trabalho é fundamental.

Claro que a cultura e a tradição das empresas são sempre consideradas e têm peso nessas decisões, já que cada situação tem suas particularidades e toda a arquitetura, bem como o mobiliário corporativo que responde ao projeto, precisa atender às necessidades específicas de cada caso. Porém, de forma generalizada, as empresas estão apostando em postos de trabalho flexíveis, sem mesas fixas, e os espaços colaborativos estão ganhando a cada dia mais protagonismo nas estruturas corporativas. E isso já vinha acontecendo antes mesmo da chegada da pandemia.

Mudanças de infraestrutura vão ocorrer, isso é outro fato. Aliás, já estão ocorrendo. Mais espaço entre as mesas, mais infraestrutura de telecomunicações nas salas de reunião, menos aglomeração, mais segurança. Mas eliminação do espaço de trabalho não é uma possibilidade.

Tudo isso porque o home office se mostrou viável sim. Mas viável como um adendo ao trabalho presencial, não como um substituto. Se não percebermos que na teoria o home office tinha apenas vantagens, mas, na prática, não é bem assim, faremos do home office o nosso vidro inquebrável que quebra.

* Lisandra Mascotto, da RS Design, é especialista em mobiliário corporativo, tem mais de 25 anos de experiência no segmento e atua com conceitos que estimulam conexões entre as pessoas, por meio do mobiliário, colaborando em projetos corporativos humanizados e funcionais.

Alguns exemplos de espaços colaborativos e flexíveis:

 

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